A cannabis pode salvar meu filho

Quando descobri que estava esperando o Davi comecei a fazer planos.  Passei a me imaginar passeando com ele, indo às festinhas de aniversário, nas pracinhas, no shopping.

Mas, à medida que meu pequeno ia crescendo e os passeios se tornavam mais frequente, percebi que havia algo errado. Lugares muito barulhentos, aqueles que quase toda criança adora, pareciam, para ele, uma tortura.

A verdade é que, desde que o Davi nasceu, começaram os de que ele um menino diferente dos outros. Meu pequeno tinha reações exageradas diante de barulhos como liquidificador. Agitado o tempo todo, não parava nem para comer. As refeições eram feitas com ele correndo pela casa. Nas consultas com pediatras, o diagnóstico era sempre o mesmo: “É uma fase”.

Foi o pneumologista que durante o tratamento de uma alergia, observou o comportamento hiperativo do Davi e me encaminhou  ao neuropediatra.

Não tardou para vir o diagnóstico: Davi tinha autismo.

Essa era uma palavra nova para mim. Chorei e imaginei os piores cenários: meu filho parado, em uma cama, sem qualquer tipo de interação, sem ir à escola.   

Acredito que toda mãe de autista passa pela fase do desespero. A gente se questiona sobre o porquê.  Será que a culpa era minha? Então chega a hora de partir para a ação. O autismo não tem cura, mas o quanto antes o diagnóstico for feito e as terapias começarem, maiores as possibilidades de melhoria da qualidade de vida.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 70 milhões de pessoas têm Autismo. No Brasil, o psiquiatra Estevão Vadasz - coordenador do Projeto Autismo do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo - estima que 2 milhões de  pessoas tenham a síndrome no País. Desses, 95% estão completamente desassistidos. Sequer foram diagnosticados. Podem estar sendo vistos como crianças insubordinadas, mal educadas. Mães podem estar, a esta hora, sendo orientadas a levarem os filhos à igreja como forma de “tratá-los”.   Aconteceu comigo.  

Para piorar, a lei que garante aos autistas os mesmos direitos de outros indivíduos com alguma deficiência não saiu do papel e muitos profissionais de saúde não estão aptos a diagnosticar o transtorno.

Então o que a maior parte das mães de autistas faz é mergulhar de cabeça em um mundo desconhecido e sem muito apoio. Eu fui uma dessas mães. Procurei uma equipe multidisciplinar para que meu filho pudesse se desenvolver da melhor forma possível.  Terapia Ocupacional, Fonoaudiólogo, Psicólogo. Mas tudo meio disperso.  

Davi teve seu diagnóstico de “Asperger” (autismo leve) fechado aos 3 anos de idade. Desde então começou a fazer o uso do medicamento Respiridona para que as crises de agressividade, ansiedade e hiperatividade melhorassem.

 A agressividade diminuiu, mas a ansiedade e hiperatividade continuaram. Isso, sem contar os efeitos colaterais: piora nas crises alérgicas, crises de abstinência quando não toma o medicamento e aumento significativo de peso o que exige uma alimentação restrita.

Com seis anos de idade, Davi chegou a pesar 32 quilos. As crises de ansiedade e hiperatividade atrapalham o desempenho escolar. E à medida que ele cresce, preciso aumentar as doses desses medicamentos que causam o seu mal estar. Triste dilema.  

Comecei a minha busca por informações sobre o autismo em 2014, logo após o diagnóstico. Encontrei poucos grupos de Belém que auxiliassem mães de autistas. Senti falta de apoio, de conversar com outros pais e mães que passassem pelo mesmo que eu.

Foi nessa época que tive contato, no facebook, com Bruna Fernanda, uma mãe que mora no Rio de Janeiro. Ela havia postado um vídeo contando a agonia do filho, autista, ao encontrar um cachorro no elevador. A dona do animal não entendeu. Houve discussão. Fruto da incompreensão.

Comecei a trocar experiências com a Bruna e, por meio dela, tive meu primeiro contato com informações sobre o uso da cannabis como substituto dos remédios para o controle da ansiedade, hiperatividade e crises de epilepsia.

Sem o óleo da cannabis, teria que continuar com a Respirona e incluir a Ritalina no tratamento do Davi. Fui ler a bula. Os efeitos colaterais me deixaram assustada. Por isso, me recusei a continuar dando esse tipo de medicamento para meu filho e comecei a pesquisar mais a fundo alternativas para o tratamento do autismo.

No Brasil, o uso medicinal da cannabis ainda é proibido. Mesmo assim, algumas pessoas conseguiram autorização especial da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mediante prescrição médica e laudo da patologia.  

 

Desde então venho lutando para conseguir o óleo da cannabis.  Por meio da internet, entrei em contato com outras mães e criamos um grupo (Cannabis Medicinal Autismo Belém). Hoje, seguimos juntas nessa batalha.        

Essa se tornou mais uma fase da minha luta pelo direito à qualidade de vida do meu Davi. Fui a vários médicos e nenhum queria prescrever o óleo. A maioria sequer conhecia os efeitos positivos da cannabis para os autistas. Poucos estão abertos a falar sobre isso, o diminui muito as chances de vermos nossos filhos  melhorarem.

 

A substância é associada a seu efeito psicoativo, mas, apesar da imagem negativa, o uso medicinal da erva é antigo e, em países onde a aplicação é   legalizada, não são poucos os tratamentos possíveis com a substância entre eles, contra o câncer, epilepsia, dores crônicas, autismo entre outros.

Ninguém na associação de Belém faz uso do óleo ainda. Eu consegui graças à ajuda do grupo que fica no Rio de Janeiro.  Enviei o laudo e identidade do Davi, por e-mail, e em alguns dias tive acesso ao óleo. Com auxílio de um médico e um farmacêutico que fazem parte do grupo, Davi começou a usar a substância extraída da maconha .

Nos primeiros dias já pude notar a melhora no sono. Meu filho passou a dormir muito bem durante toda a madrugada e passava o dia mais calmo, menos ansioso. Faz mais de um mês que Davi está usando o óleo. Pude reduzir a quantidade de Respiridona e notar cada vez mais o amadurecimento dele e concentração nas atividades.

 Eu sabia que estava me arriscando fazendo uso ilegal do óleo e com acompanhamento médico apenas por mensagens, pois eles não residem em Belém. Porém, era a única alternativa que tinha no momento. Assim como eu, existem milhares de mães espalhadas pelo Brasil que compram o óleo de forma ilegal  e fazem acompanhamento médico à distância.

No momento em que escrevia este texto, tive a notícia de que consegui a prescrição médica e que com esse documento poderei ter autorização da Anvisa para uso do óleo. Uma vitória.  

Muitas outras mães continuam na luta.     

As pessoas me perguntam sobre os efeitos adversos da cannabis com fins terapêuticos. Tenho ouvido dos especialistas que isso depende da forma de uso. Por isso, a necessidade de acompanhamento médico. A APEPI  (Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal) fomenta a mobilização da sociedade e apoio mútuo em prol da regulamentação do uso da maconha medicinal para garantir a todo brasileiro o direito à informação e acesso ao tratamento com cannabis.

Não é um milagre. É um medicamento natural que ajuda significativamente no quadro do Transtorno do Espectro Autista (TEA), juntamente com as terapias e acompanhamentos feitos por equipe multidisciplinar.

Legalizar o uso medicinal da cannabis no Brasil é preciso. É preciso também  que os  profissionais da área da saúde  se informem sobre isso. Saibam o que prescrever e como avaliar cada paciente.

Essa é uma questão de saúde pública. As pessoas que lutam pelo acesso à cannabis estão em uma luta constante contra o tempo e contra o  preconceito que impede um debate transparente sobre o assunto.

Enquanto você leu este texto, uma criança pode ter morrido com os efeitos colaterais dos medicamentos vendidos e prescritos de forma lícita no Brasil. Muitas outras mortes podem ser evitadas. Pense nisso antes de nos  julgar.     

 

Para saber mais:

 

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