Passagem das horas com café

O ritual é o prenúncio de um deleite. Receber a xícara ou apertar as garrafas térmicas dos restaurantes é um barato que faz as tardes chuvosas, modorrentas, ganharem ares de fim de expediente numa sexta-feira, quando as preocupações passam e a vida parece ser uma festa. Quando estou na estrada, o café é infalível depois do almoço. Entre uma pauta e outra, ele vem para marcar o intervalo, às vezes o papo à-toa. No fim do dia, é motivo de alegria. Gosto amargo, para adoçar a alma. Ele é companheiro constante, presente na volubilidade da minha existência.

Já há alguns anos anseio pela hora do café com os amigos. Marcamos sempre em lugares diferentes de Belém. Algumas vezes, é em casa mesmo. Tenho uma companheira fiel, com quem já dividi os maiores segredos nessas horas. Gostamos de variar. Puro, expresso, carioca, macchiato, moca, com leite. Com salgado ou um docinho. Mas sempre quente. Em geral a gente já sabe como quer, mas é como eu disse, o ritual faz parte do prazer. É o prazer de chegar, escolher o lugar, pegar o cardápio, dar uma conferida na decoração do local, pedir e degustar. A xicrinha soltando fumaça... hum, uma delícia!

O momento do café, que em muitas culturas sempre foi a hora logo após as refeições – afinal, é sabido que a bebida tem propriedades digestivas –, para mim, portanto, é quase sagrado. Virou motivo de união, equivalente à ida ao bar para uma rodada de chopes. Entre um expresso e outro, vêm confissões. Fazemos planos de viagem. Lembramos fatos do fim de semana e prospectamos melhorias (aquela viagem para a Europa um dia, quem sabe, ou o show do Chico na próxima turnê). Fica aqui uma sugestão aos cientistas, que já comprovaram, entre outras, a capacidade do café de estimular o raciocínio: que tal pesquisar a produção do otimismo nos nossos corações?

Esquinas cafeinadas

Belém está cheia de opções para quem procura um bom café. Um dos meus favoritos é o Café da Fox, na Doutor Moraes. O lugar que durante anos eu visitei apenas para alugar filmes, ganhou uma livraria e loja e virou um dos melhores pontos de encontro de amigos. Entre saraus e lançamentos de livros, estão dispostas as mesas. O clima é tão convidativo que as horas passam sem que a gente perceba. Fernando Pessoa teria gostado dessa passagem.

Outro café gostoso e aconchegante é a Cafeteria Dom Valentim. A vitrine que proporciona uma visão da Marquês, na Pedreira, dá charme ao espaço, recheado de ótimas opções inclusive de comidinhas e lanches. As tapiocas são uma atração – e combinam perfeitamente com café puro, fumegante. Se você estiver no shopping ou à espera do próximo voo, os shoppings e o aeroporto também oferecem a opção, geralmente em franquias como a Café do Ponto (Boulevard) e a Scada Café (Bosque Grçao-Pará).

Como eu disse, porém, em casa também se faz café. É só colocar o pó para coar, esperar pelo aroma invadir a atmosfera e escolher a caneca. Meus fins de dia são sempre na companhia desta bebida. E os começos também, embora eu saiba que, lá pelo meio da jornada, estarei com uma xícara na mão, na mesa do trabalho ou no meio da reunião, quiçá na casa daquela minha companheira de todas as horas, de todos os cafés. Um verdadeiro brinde à amizade!

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