O encontro de si que levou ao outro

Manhã de domingo, sol forte, Isabella, 27 anos, e Rafael, 25, caminham pela Praça Batista Campos, uma das mais belas e românticas da capital paraense. Mãos dadas, trocam carinhos. Misturados às dezenas de casais que aproveitaram o dia de folga para passear, não chamam a atenção.

O programa que para muitos é quase rotineiro, para eles é só um armistício em meio a uma vida de muitas batalhas. A primeira dessas batalhas foi interna. Isabella e Rafael são transgêneros. Ou seja, nunca se identificaram com o sexo biológico e o processo de autoaceitação foi longo e doloroso.

A segunda e mais difícil batalha foi dentro das famílias que, a princípio, reagiram contra o mundo desconhecido da transexualidade. Depois, vieram as lutas diárias contra o preconceito nas ruas e instituições da capital paraense, onde se tornaram militantes da causa LGBT.

Isabella nasceu menino, era empurrada para as brincadeiras de meninos, mas soube desde muito cedo que não se encaixava naquele corpo.

“Desde os 12 anos, me olhava no espelho e sentia que tinha algo de diferente. Não sabia o que era transexualidade, então não sabia o que eu era, mas tinha vontade de me vestir como menina. Quando ganhava presentes da minha mãe, pedia bonecos porque se eu pedisse boneca, apanharia.  Eu pegava caixa de papelão na rua, cortava e fazia porta, janela e botava os bonequinhos lá dentro enrolado num pano como se fossem vestidos. Meus amigos diziam que era um gay afeminado, mas isso também não me definia”, conta Isabella, que desde 2015 vem lutando para trocar o nome civil e pede que nesta entrevista seja chamada pelo nome que escolheu.

“Estou com um processo na Justiça para trocar (o nome). Já tive minha audiência, estou esperando o resultado do juiz. Nós, pessoas trans, não nos sentimos bem com nosso nome e lutamos na justiça para trocar e as pessoas insistem em perguntar como é meu nome de verdade (irritada). Meu nome de verdade é Isabella Santorinne Sousa Braga. Agora o meu nome de registro eu prefiro não falar”.

“Vivi por mais de 20 anos com uma identidade que não era minha para agradar a minha família”.

Rafael Carmo Ramos, 25 anos, já conseguiu mudar o nome no registro civil. Ele também reclama da insistência das pessoas em saber como ele se chamava antes. Sereno, conta que nunca duvidou do seu gênero, apesar do conflito com o sexo biológico. “Minha irmã é mais nova, e quando a gente brincava com meus primos e primas eu sempre me identificava com o gênero masculino, mas esbarrava naquele conceito muito tradicional, conservador, então eu nunca pude vivenciar essa identidade, apesar de muito novo me identificar como menino. Sempre desejei ser igual a meu pai, mas vivi por mais de 20 anos com uma identidade que não era a minha para agradar a minha família”, conta, lembrando que a infância e adolescência foram recheadas de angústia. “Houve um momento em que perdi a vontade de sair de casa. Acabei desistindo da primeira faculdade por conta disso. Não conseguia ter convívio social”.

Foi vendo uma reportagem na TV sobre a vida de um menino trans que Rafael começou a entender o que se passava com ele. “Percebi que eu sentia as mesmas coisas e não sabia explicar. Eu era um homem trans, mas não sabia como fazer a mudança. Nem imaginava que isso era possível”.

O jovem estudante de artes visuais procurou ajuda, pesquisou na Internet e hoje faz parte de um grupo que reúne outros 100 homens trans em Belém.

O encontro

Os caminhos de Isabella e Rafael se cruzaram há 2 anos e sete meses, durante uma manifestação LGBT em Ananindeua, município na Região Metropolitana de Belém. “Eu já tinha visto a Isabella e conhecia a militância dela, mas ela não tinha me notado ainda. Foi lá que a gente começou a conversar”.

As conversas evoluíram para o namoro e hoje eles fazem planos. “Eu e o Rafa já somos uma família, mas penso em ter um filho ou filha de forma natural. Sei que é difícil para ele pensar uma gravidez”, conta Isabella. Rafael concorda encerrando a conversa.

O passeio pela Praça continua. O clima de tranquilidade esconde uma realidade de medo. “Homens trans são frequentemente vítimas de estupro porque as pessoas não querem respeitar a identidade do outro. Hoje eu tenho um convívio social melhor, mas tenho as minhas inseguranças”, confessa Rafael, afirmando que apesar dos temores, faz questão de “dar a cara a tapa”. “Hoje sou mais feliz do que jamais fui. Quero que outros também sejam e, para isso, é preciso manter a luta. Poderia passar despercebido, já mudei meu nome civil, mas quero contar minha história, continuar lutando”.

 

ONG é referência no atendimento aos transgêneros

A luta pela própria aceitação levou Isabella Santorinne a conhecer outros homens e mulheres que passavam pelas mesmas dores, e daí surgiu a ideia de criar uma entidade de apoio. Em 2016, surgiu a Rede Paraense de Pessoas Trans. “A Rede foi criada por uma necessidade muito grande lutar por políticas públicas para nossa população. A gente sentia que os transgêneros de Belém estavam muito espalhados, não estavam juntos para lutar por um bem maior”, conta.

No início a Rede reuniu dez pessoas. Hoje são cerca de 20 membros efetivamente ligadas à ONG, mas o número de atendidos é bem maior e pode passar de 200, entre homens e mulheres, segundo dados da própria entidade. “A principal luta da população de transexuais é pelo direito do uso do nome referente ao gênero com o qual nos identificamos. Hoje em dia falamos do uso do nome social, mas a gente já está indo muito além. Queremos retificação do nosso nome civil”.

Na prática, isso significa mudar o registro de nascimento e, por consequência, todos os documentos. Outra luta é contra o preconceito no mercado de trabalho. “Muitos têm aquela imagem dos trans como figuras marginalizadas. Acreditam que nunca vamos poder trabalhar em outra profissão que não seja prostituição ou como cabeleireira. A travesti não pode ser qualificada, não pode ter nível superior, não pode ter nível médio, e mesmo quando consegue, não consegue emprego, não consegue entrar no mercado de trabalho por conta de todo esse preconceito”.

No ano passado, uma morte a cada 48 horas 

No ano passado, um transgênero foi morto a cada 48 horas. Os dados  são do Mapa dos Assassinatos de Travestis e Transexuais atualizado pela  Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

Até 24 de dezembro do ano passado, foram  174 mortes,  sendo 169 travestis e mulheres transexuais, e outros 10 casos registrados contra homens trans. Mais da metade das vítimas 60% tinham entre 16 e 29 anos, e 85% dos casos aconteceram com requintes de crueldade.

Até maio deste ano, foram registradas quatro mortes no Pará, conforme o monitoramento mantido pela página Transbrasil que você acompanhar na página http://redetransbrasil.org.br/2018/05/03/monitoramento-de-assassinatos-de-pessoas-trans/

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