Os fatos, nada mais que os fatos

Por Francisco Viana

No dia 3 de maio, a UNESCO comemorou o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, um momento para pensar o sentido e o papel do jornalismo no Brasil de hoje. A questão central parece ser: a imprensa é parte fundamental do poder no País ou é o próprio poder?

As duas trajetórias se confundem.

Hoje, a imprensa brasileira é teoricamente mais livre. A censura acabou. A liberdade de imprensa é assegurada por lei. Essa é considerada uma conquista da democracia.

 Na prática, contudo, é uma imprensa limitada que traz a público os fatos, mas pouco discute as estruturas  que a eles dão origem ou onde os fatos têm suas raízes. 

Na realidade, é uma imprensa de hábitos muito espartanos quando se trata de discutir temas como o valor do trabalho, movimentos sociais, conservadorismo das elites, poder popular, entre outros que dizem respeito a ma democracia de massas e participativa, mas que no Brasil  soam como sendo de esquerda.

E, ser de esquerda por essas bandas - e muito por força da narrativa monolítica da mídia - ainda é como ser portador de alguma doença grave, transmissível. Uma espécie de inimigo público. 

Não é uma realidade que tenda a mudar com as novas tecnologias e a internet. É uma realidade que tende a ter maior abertura para temas tidos como tabus. Contudo, permanece praticamente imóvel no tempo, refém principalmente do mito  da neutralidade e da isenção.

Um mito que resiste e que ultimamente tem ganhado forma na doença infantil do antipetismo. 

Não é preciso ir muito longe basta ver o posicionamento da imprensa no impeachment da presidente Dilma Rousseff e nas prisões da Lava Jato, inclusive a de Lula. Cristalizam-se as versões oficiais, discute-se marginalmente as contradições, a capacidade investigativa ainda é escassa para os padroes mundiais.

Falta um grande jornal de centro-esquerda, que aglutine as correntes progressistas liberais e a esquerda; que forme e informe a opinião pública. Essa é uma batalha sempre adiada. Dela, a esquerda não quer tomar conhecimento, ou o faz romanticamente. 

A  novidade é que o público vem se tornando mais exigente e a discussão pública da mídia,  vem pondo o conservadorismo em xeque naquele ponto em que ele é mais vulnerável - a isenção. 

A isenção não existe. É uma questão de circunstância. Se há polarização, logo ela, a isenção, se desfaz.

É só avaliar a mídia nos momentos cruciais da história do Brasil. Pende sempre à direita, quando não à direita da direita. E não poderia ser diferente.

A mídia entre nós é uma instituição conservadora e como tal tem seus interesses. Nas últimas décadas, a mídia se sofisticou empresarialmente e cada vez mais torna-se uma empresa, com a diferença que procura realçar seu lado de serviço público. O que não muda ou muda muito pouco é o seu perfil conservador e a crise que se agrava por força das mudanças de hábitos provocadas pela internet e as mídias digitais.

Consequentemente, há muito que refletir ( e, principalmente, a fazer). Em particular, é preciso refletir a propósito do Jornalismo: até que ponto ele pode mudar a realidade ou o Jornalismo não passa de uma profissão como outra qualquer? É uma pergunta em aberto. As respostas exigem prática.

 

*Francisco Viana é jornalista e doutor em Filosofia Política ( PUC-SP). 

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